segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sobre o polimata: atletas intelectuais





Gostaria de citar o seguinte texto do historiador inglês Peter Burke: “É comum hoje falar da "organização do conhecimento" como se a produção do conhecimento ocorresse em uma grande fábrica. Nessa organização há lugar para diferentes papéis intelectuais. De fato, com certeza é preciso haver uma variedade considerável de tais papéis; para administradores intelectuais, por exemplo, para integrantes de equipes de pesquisa e para eruditos isolados. Além dos milhares de profissionais que atuam nas diversas áreas de conhecimento, há também um papel, mesmo hoje, para o amador e também para o polímata, o erudito que se dedica em casa a muitas (ou pelo menos diversas) disciplinas intelectuais. O polímata ainda não está totalmente extinto enquanto espécie intelectual, mas com certeza está ameaçado. A palavra "polímata" surgiu no século 17. No mundo antigo e na Idade Média européia, não se falava em polímatas porque se supunha que os eruditos tivessem um vasto aprendizado e que alguns aspirassem ao "enciclopedismo", em outras palavras, a um conhecimento de todo o "curso" ou "currículo" de estudos (esses termos originalmente evocavam uma imagem vívida de atletas intelectuais, de antigos estudantes gregos correndo em volta de um estádio). No século 17, no entanto, a nova palavra "polímata" se tornou corrente em latim, francês, inglês e alemão. Pode-se dizer que a invenção da nova palavra foi um mau sinal. De qualquer forma, foi um sinal da crescente consciência da existência de um problema, o problema do que pode ser chamado de uma crescente "crise de conhecimento".
Graças à descoberta do Novo Mundo e à revolução científica, boa parte do novo conhecimento entrou em circulação na Europa, e a prensa tipográfica permitiu que esse conhecimento, mais do que nunca, atingisse um número muito maior de pessoas. Infelizmente houve um preço a pagar por esse progresso intelectual. Em 1550 já começaram a surgir reclamações de que tantos livros haviam sido impressos que ninguém tinha tempo nem sequer de ler os títulos, muito menos de descobrir os conteúdos. No final do século 16, alguns europeus liam a história de Dr. Fausto, um homem com uma sede insaciável de conhecimento, enquanto outros assistiam a uma peça de teatro sobre o mesmo tema. No entanto, Fausto não foi apresentado aos leitores ou espectadores como um herói, mas como uma advertência que teve um final infeliz, sendo arrastado para o inferno no final da peça. Em todo caso, se Fausto era incapaz de aprender o que queria saber sem a ajuda do demônio, então o velho ideal enciclopédico de conhecimento universal estava certamente ameaçado. Em 1600, começava a tornar-se impossível dominar todos os campos do conhecimento acadêmico (sem contar os muitos tipos de conhecimento prático) e, por essa razão, os relativamente raros eruditos que faziam descobertas em várias disciplinas diferentes vieram a ser conhecidos como "polimatas". Esse talvez seja o termo mais apropriado para descrever Francis Bacon e Gottfried Wilhelm Leibniz, que hoje são mais conhecidos como "filósofos", apesar de a filosofia ser apenas uma das áreas às quais fizeram contribuições originais. Leibniz, por exemplo, fez importantes contribuições à matemática, história, direito e linguística. A carapuça de polímata também serviu ao jesuíta alemão Athanasius Kircher, que escreveu (entre outras coisas) sobre China, Egito, magnetismo, matemática, mineração e música. Da mesma forma, Isaac Newton não se restringiu aos estudos da gravidade e da ótica, que lhe valeram sua reputação internacional. Estudou sobre cronologia e alquimia e atuava na vida pública como Mestre da Casa da Moeda, certificando-se de que as moedas ali fabricadas eram de boa qualidade.
No século 18, no entanto, os estudiosos foram obrigados a ser mais modestos. As enciclopédias, que antes haviam sido compiladas por eruditos individuais, foram entregues a equipes de colaboradores, como as 135 pessoas que escreveram a famosa "Encyclopédie" francesa, sob a direção de Denis Diderot. As enciclopédias estavam substituindo o enciclopedismo. Em outras palavras, cada vez mais os eruditos buscavam informações quando precisavam, em vez de saberem a resposta de antemão. No século 19, o surgimento de várias palavras novas, como "perito", "profissional", "cientista" e "especialista", foi um sinal de que a divisão do trabalho intelectual havia se expandido ainda mais. Em épocas anteriores, o curso universitário básico para todos era constituído das sete artes liberais, que iam de retórica a astronomia, mas, depois de 1800, estudantes começaram a se especializar em uma disciplina de um "departamento" (outro termo novo). Seus professores também estavam se tornando especialistas. Houve uma certa resistência à tendência, notadamente na Inglaterra, onde o ideal do "gentleman" amador persistiu até o século 20, mas a especialização acabou triunfando.
Surgiu um abismo entre as ciências naturais e as humanidades (as famosas "duas culturas"), seguido pela separação entre física e química, sociologia e psicologia e assim por diante. Foi nesse contexto que o historiador suíço Jacob Burckhardt, ele próprio artista, poeta e músico, bem como jornalista e historiador, descobriu o tipo que denominou o "homem multifacetado" do Renascimento, incluindo Leonardo da Vinci. Durante o próprio Renascimento, uma ampla variedade de interesses intelectuais não foi reconhecida. Na época de Burckhardt, Leonardo tornou-se o símbolo de um "paraíso perdido" intelectual e um meio para que o historiador criticasse seu próprio tempo. A divisão do trabalho intelectual, como a divisão do trabalho de forma geral, possui vantagens óbvias. Coletivamente, a raça humana sabe mais hoje do que nunca antes. O preço que pagamos, no entanto, é alto. Como indivíduos, sabemos menos do que nossos ancestrais, ou, mais exatamente, sabemos cada vez mais sobre cada vez menos. Tentativas de lutar contra a tendência à especialização e à fragmentação têm sido feitas, mas seu sucesso tem sido limitado. A história intelectual é a história de um longo afastamento do conhecimento geral acompanhado por uma série de ações significativas de retaguarda.
Em nível coletivo, têm havido muitas tentativas de promover abordagens interdisciplinares, como no caso dos "estudos culturais", uma combinação de literatura, história, sociologia etc. O problema é que, a partir da segunda geração, novas disciplinas tendem a se formar, e a revolta contra a especialização precisa recomeçar do zero. Alguns polímatas do século 20 também conseguiram resistir às pressões da especialização. No Brasil, eles incluíram Gilberto Freyre. Nos Estados Unidos, pensa-se em Lewis Mumford, que escreveu sobre arquitetura, cidades e sociedade e que gostava de se auto-intitular um "generalista", não um especialista. Na França, havia Michel de Certeau, que se considerava modestamente um historiador, mas também estudou psicanálise e fez contribuições à antropologia e à sociologia, bem como à filosofia e à teologia. Na Inglaterra, Joseph Needham atuou como bioquímico antes de se dedicar à história da China. Espera-se que eles não sejam os últimos dos dinossauros. Mas certamente o serão, caso as universidades e os governos não considerarem a construção de um habitat intelectual no qual as espécies ameaçadas possam sobreviver”.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

As virtudes necessárias para o ato do Filosofar


A definição de virtude tem sua origem no latim, virtus, o que significa uma força viril capaz de produzir atos, ou seja, efeitos. Sendo assim, para adquirir o ato de filosofar, a primeira virtude necessária é uma força viril, nas palavras de Nietzsche: “Uma virilidade inflexível e rude”. Uma outra virtude importante na formação do aspirante a filósofo é o desinteresse pela política: “De fato, todo aquele que tiver o furor philophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler o jornal todos os dias e especialmente militar em um partido”. (Nietzsche). Acredito que estes são os dois principais pré-requisitos em direção ao filosofar. Quanto eu pratico o exercicio da reflexão a respeito da atividade dos pretensos “intelectuais” brasileiros, observo a ausência de um pensamento original e autêntico na prática filosófica brasileira, e isto se dá, porque em sua extensa maioria, estes “intelectuais”, não possuem os pré-requisitos citados. E ainda, eles estão totalmente comprometidos, pois associam a atividade do filosofar a obrigação de ganhar seu pão de cada dia, ou melhor, não existe independência em seu pensamento, seja em relação ao Estado ou a qualquer instituição pública ou privada. Sendo assim, como produzir um pensamento genuíno e autêntico sem liberdade no Brasil? Para romper com estes grilhões a sociedade brasileira necessita de uma boa dose de narcísimo saudável, isto porque sofremos de um patologia pós-moderna denominada niilismo, que tem como principais características o pensamento trágico, a melancolia, a preguiça e a baixa estima, o que impede o surgimento do gênio, se o compreendermos como aquele responsável pela criação e a inovação, e que contém como potência, o narcisismo. Enfim, vive-se tempos obscuros: “De fato, afirmo-o, há realmente homens para quem é um sofrimento pessoal ver o gênio empenhado numa luta penosa, exposto a se destruir a si mesmo ou ver suas obras postas negligentemente de lado pelo egoísmo sem visão do Estado, a baixeza de espírito dos negociantes, o seco prosaísmo dos sábios”. (Nietzsche). Como diria um amigo meu, quem nasceu para ser discípulo do Luiz Felipe Pondé1, nunca será Nelson Rodrigues.

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

1“Filósofo” e colunista da Folha de São Paulo.

A paciência do conceito e o valor da existência


A PACIÊNCIA DO CONCEITO1 E O VALOR DA EXISTÊNCIA2

Neste título está contida duas concepções filosóficas de extrema importância para a Filosofia Ocidental. A primeira é de origem hegeliana e se refere ao processo de amadurecimento e a compreensão de um determinado conceito na História. A segunda concepção nasce de um questionamento realizado por Nietzsche em sua “Terceira consideração Intempestiva”. E nesta segunda concepção, que desejo inciar esta breve exposição, para depois caminharmos em direção a primeira concepção. Segundo Nietzsche, Anaximandro foi o primeiro a colocar a questão ética como fundamento de toda a Filosofia no Ocidente: “(Anaximandro) foi o primeiro grego que ousou tomar nas mãos o novelo do mais profundo dos problemas éticos. Como pode perecer o que tem direito de ser!? De onde vem aquele incansável vir-a-ser, de onde vem aquela contorção de dor na face da natureza, de onde vem o infindável lamento mortuário em todo reino do existir?”, e ainda,Ele deixa o olhar deslizar ao longe, para enfim, depois de um silêncio meditativo, dirigir a todos os seres a pergunta: “O que vale vosso existir? E, se nada vale, para que estais aí? Por vossa culpa, disso me apercebo eu, que permaneceis nessa existência. Com a morte terei de expiá-la. Vede como murcha vossa terra; os mares se retraem e secam; a concha sobre amontanha vos mostra o quanto já secaram; o fogo desde já destrói vosso mundo, que, no fim, se esvairá em vapor e fumo. Mas sempre, de novo,voltará a edificar-se um tal mundo de inconstância: quem seria capaz de livrar-vos da maldição do vir-a-ser?”. Sendo assim, sentimos que a consciência do vir-a-ser nos mostra que a existência não possui um valor intríseco, e somente o homem que é capaz de dar siginificado a vida existente. Em toda a Modernidade buscou-se este objeto, o valor de nosso existir, mas sempre como sendo algo que está fora do homem, um horizonte a ser alcançado, compreendido e possuído. No entanto, na Pós-modernidade este projeto se mostrou falido, não podendo mais se falar no valor da existência, mas no valor que a existência tem para o sujeito que está no mundo da vida (lebenswelt). Como isto se dá? Através de um movimento processual e paciente de individuação, que se realiza na construção de sua História. Eis a grande questão: Como se individuar, pacientemente, em uma realidade cada vez mais líquida, contingente e fluída? Ou como diria Nietzsche: “Quando o Filósofo pensa na pressa geral e na rapidez dos fatos, no desaparecimento de toda a espécie de recolhimento e simplicidade, parece quase discernir os sintomas da completa extirpação, da erradicação total da cultura”. Enfim, qual é o valor que você dá a SUA existência?


Prof. Dr. Wellington Lima Amorim
1Lebrun, G. A paciência do conceito.
2Nietzsche, F. Terceira consideração Intempestiva.

O que é isto a pós-modernidade?





Resolvi escrever este artigo para distinguir a definição de Pós-Modernidade do conceito de Modernidade. Isto porque, longe de ser um mero preciosismo, é de suma importância não entender o fênomeno do niilismo como sendo uma extensão da própria Modernidade, esta inaugurada por Kant no século XVIII. Segundo Vatimo: De acordo com Nietzsche e Heidegger, a Modernidade pode se caracterizar pelo fato de que ela se baseia na apropriação dos “fundamentos”, que freqüentemente são pensados também como as “origens”, de modo que as revoluções teóricas e práticas da história ocidental se apresentam e se legitimam, na maioria das vezes, como “recuperações”, renascimento, retorno”. Esta última fundamentação é a fé no indivíduo como formador de seu próprio destino, ou ainda, a esperança e o otimismo nos grandes sistemas e metanarrativas da História que apontam para um futuro, atingindo o seu auge no desenvolvimento do pensamento hegeliano. A Pós-Modernidade vai em direção contrária, e tem como principal fenômeno a ausência de fundamentos, a queda trágica do indivíduo, seu total aniquilamento, tendo como consequência o niilismo, que segundo Vattimo: É com esta conclusão niilista que se sai de fato da Modernidade, segundo Nietzsche. Pois a noção de verdade não mais subsiste e o fundamento não mais funciona, dado que não há fundamento algum para crer no fundamento, isto é, no fato de que o pensamento deva “fundar”: não se sairá da Modernidade mediante uma superação crítica, que seria um passo ainda de todo interno à própria Modernidade. Fica claro, assim, que se deve buscar um caminho diferente”. E assim que podemos falar em uma Pós-Modernidade e o niilismo como seu principal fênomeno, ou melhor, o principal sintoma de nosso tempo (Zeitgeist), um mundo desencantado, do Deus Morto, ausente, uma realidade decadente. O que nos resta diante desta tal situação? Melancolias, devassidão, individualismos exabercabos, revoltas políticas, dor e sofrimento. Não acredito no final da História, mas com certeza há uma crise sem precedentes que nos jogou para fora da Modernidade que segundo Elizeu Gomes: “A Pós-Modernidade, segundo Vattimo, para se diferenciar da Modernidade, deve afirmar, como sua característica, o pensamento fraco, que é se propor o repensamento de todas as questões sem pretender uma superação, mas sim uma sustentação dos mesmos. Fora de qualquer possibilidade de se absolutizar um pensamento ou tomá-lo como fundamento, o pensamento fraco se mostra sem força, unidade e predeterminação, pelo fato de querer ser ultrametafísico, ou seja, viver na consumação do niilismo”.
Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

sábado, 31 de março de 2012

Saudade, solidão e melancolia



Sinto-me só, e por consequência saudoso de um tempo onde as tradições ainda faziam sentido. No entanto, o espírito de nosso tempo, Zeitgeist, é marcado pela contingência e a liquidez. O romantismo ficou fora de moda, ou melhor, se tornou brega. Mas tenho que admitir que sinto falta deste romantismo, onde a sensualidade era marcada com a fala ao pé do ouvido. Atitude esta compreendida como sinômino de delicadeza e suavidade, sem excessos, harmônico, dinâmico e belo. Era uma época onde o sensual era o mais importante que o sexual, onde o barroco ocupava um espaço primordial frente ao cruel realismo contemporâneo. Vivemos momentos sombrios, onde o analfabetismo cultural está na ordem do dia. Em um mundo desencantado, somente nos resta a solidão, melancolia e saudade. De onde vem tanta saudade? De uma memória que arde, que dilacera, que me faz lembrar dos sábados a noite assistindo “Em algum lugar do passado”. De uma memória que se recusa a esquecer de Elis Regina, da ingenuidade do homem do campo, uma virtude há muito tempo perdida e rejeitada pelas novas gerações. Sinto falta de Millôr Fernandez e de sua irônia dominada, fina, sutil, perigosa. Nossa cultura agoniza. Nas palavras de Henry Thoreau: “Somos subeducados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que não faço grande distinção entre a ignorância do meu concidadão que não sabe absolutamente ler nada, e a ignorância do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crianças e inteligências medíocres. Deveríamos estar à altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primordialmente quão grandes eles foram. Somos uma raça de homens-passarinhos; nos nossos vôos intelectuais mal nos alçamos um pouco acima das colunas do jornal. Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exatamente à nossa condição, as quais, se de fato pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas. Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro!”. O que me resta neste outono, nesta decadência infinita? Saudade de uma época que não vivi intensamente. A solidão como condição da minha consciência crítica. E por fim, a melancolia, que é exclusivamente minha, que dilacera, que me deixa irriqueito, felizmente. Afinal estar adaptado em uma sociedade doente, não é um bom sinal.

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

terça-feira, 13 de março de 2012

A beleza feminina e o ato de se prostituir



Nestes últimos dias do verão em Santa Catarina estou lendo Schopenhauer, Machado de Assis e Lima Barreto. Essa tríade não é muito saudável para os espíritos melancólicos, críticos e que tem surtos psicóticos, mesclados com desejos suicidas. Esta tarefa de veraneio me fez refletir sobre a nossa condição de Ser brasileiro. Tudo no Brasil é líquido, fugidio e contingente, ou melhor, tudo se desmancha no ar. Ser brasileiro é Ser decadente, é Ser banal é assim que nos representamos. Os romances de Lima Barreto nos fazem refletir a esse respeito: Porque o Brasil não dá certo? É uma pergunta feita por Lima Barreto e que nos fazemos ainda hoje, sendo de uma atualidade que chega a ser monstruosa. Para Machado de Assis não há solução possível. Ele é um cético em relação ao nosso progresso e desenvolvimento. Todo e qualquer projeto político no Brasil se torna utópico ou defeituoso quando tentamos aplicá-lo na nossa realidade. Mas existe uma realidade? Existe uma realidade sempre a partir de um sujeito: “O mundo é minha representação” (Schopenhauer). E qual a representação de Ser brasileiro? Para isso é preciso observar que desde nossa Independência não há uma representatividade real do povo brasileiro e a República não foi diferente. Existiam na época da República três correntes de pensamento político: a) Jacobinismo de influência francesa, extremamente romântico, que através da leitura de Rousseau, vai definitivamente, através da obra “A origem da desigualdade entre os homens”, proporcionar, infelizmente, a entrada do pensamento marxista, no século XX aqui no Brasil, extremamente utópico e irreal; b) O liberalismo norte-americano; c) O positivismo. Como sabemos o positivismo ganhou esta disputa, devido a nossa herança católica e tomista, que se enquadra perfeitamente na estrutura hierárquica de Augusto Comte: "Não por acaso, Comte dizia ter-se inspirado nas tradições cristãs da Idade Média" (José Murilo de Carvalho). Eis a primeira grande diferença significativa entre o pensamento religioso brasileiro de fundo tomista, que despreza o mundo em favor de um outro mundo e o pensamento de origem luterana-calvinista, que possui nas palavras de Weber, o espírito do capitalismo. Aqui no Brasil, sempre tivemos um capitalismo predatório e de consumo, sem a ética protestante. E por que é diferente? Pela nossa formação. Todo processo formativo é um processo representativo, e sempre nos representamos como indolentes, de vontade frouxa e decadentes, é assim que nos enxergamos, seja na Literatura ou no pensamento sociológico contemporâneo. Cabe refletir: porquê nos representamos desta maneira? 


Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

terça-feira, 6 de março de 2012

A banalidade da formação no espírito brasileiro



Nestes últimos dias do verão em Santa Catarina estou lendo Schopenhauer, Machado de Assis e Lima Barreto. Essa tríade não é muito saudável para os espíritos melancólicos, críticos e que tem surtos psicóticos, mesclados com desejos suicidas. Esta tarefa de veraneio me fez refletir sobre a nossa condição de Ser brasileiro. Tudo no Brasil é líquido, fugidio e contingente, ou melhor, tudo se desmancha no ar. Ser brasileiro é Ser decadente, é Ser banal é assim que nos representamos. Os romances de Lima Barreto nos fazem refletir a esse respeito: Porque o Brasil não dá certo? É uma pergunta feita por Lima Barreto e que nos fazemos ainda hoje, sendo de uma atualidade que chega a ser monstruosa. Para Machado de Assis não há solução possível. Ele é um cético em relação ao nosso progresso e desenvolvimento. Todo e qualquer projeto político no Brasil se torna utópico ou defeituoso quando tentamos aplicá-lo na nossa realidade. Mas existe uma realidade? Existe uma realidade sempre a partir de um sujeito: “O mundo é minha representação” (Schopenhauer). E qual a representação de Ser brasileiro? Para isso é preciso observar que desde nossa Independência não há uma representatividade real do povo brasileiro e a República não foi diferente. Existiam na época da República três correntes de pensamento político: a) Jacobinismo de influência francesa, extremamente romântico, que através da leitura de Rousseau, vai definitivamente, através da obra “A origem da desigualdade entre os homens”, proporcionar, infelizmente, a entrada do pensamento marxista, no século XX aqui no Brasil, extremamente utópico e irreal; b) O liberalismo norte-americano; c) O positivismo. Como sabemos o positivismo ganhou esta disputa, devido a nossa herança católica e tomista, que se enquadra perfeitamente na estrutura hierárquica de Augusto Comte: "Não por acaso, Comte dizia ter-se inspirado nas tradições cristãs da Idade Média" (José Murilo de Carvalho). Eis a primeira grande diferença significativa entre o pensamento religioso brasileiro de fundo tomista, que despreza o mundo em favor de um outro mundo e o pensamento de origem luterana-calvinista, que possui nas palavras de Weber, o espírito do capitalismo. Aqui no Brasil, sempre tivemos um capitalismo predatório e de consumo, sem a ética protestante. E por que é diferente? Pela nossa formação. Todo processo formativo é um processo representativo, e sempre nos representamos como indolentes, de vontade frouxa e decadentes, é assim que nos enxergamos, seja na Literatura ou no pensamento sociológico contemporâneo. Cabe refletir: porquê nos representamos desta maneira? 

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Educação, Modernidade e Pós-modernidade


A modernidade pode ser descrita como um período histórico marcado pela emergência das Ciências Naturais, pela Revolução Francesa no século XVIII e a Revolução Industrial no século XIX. A modernidade também pode ser caracterizada como o período em que o Homem se tornou o centro do universo da verdade e da racionalidade. Poderíamos afirmar ainda que estamos na modernidade. Por outro lado, alguns autores apontam a emergência de uma nova condição, a pós-moderna. Por sua vez, a relação existente entre a Educação e a Filosofia pode ser considerada eminentemente moderna quando se concebe os saberes disciplinares como um instrumento de controle que se efetiva através da constituição de um território do saber. Esse mecanismo disciplinar conforma uma organização espaço-temporal e de delimitação de saberes, tendo como elemento unificador a hierarquia. Para entender o conceito de disciplina enquanto eixo de saber é necessário compreender a oposição entre o generalista e o especialista. De maneira simplificada, esta oposição é uma cruel dicotomia que se coloca contemporaneamente. O generalista poder-se-ia dizer que é possuidor de um saber transversal ou panorâmico. Por sua vez, o especialista é aquele que possui um saber aprofundado sobre um determinado assunto. O generalista sabe de tudo um pouco. O especialista sabe de tudo sobre uma única coisa. Quando a universidade foi criada no século XIII, ela transmitia o que se chamava de artes liberais, procurando dar conta dos estudos humanísticos da cultura grega. No entanto, quando atinge seu apogeu, nos séculos XVIII e XIX, o método científico está em voga, símbolo do conhecimento burguês, substituindo o modelo de ciência grega, e caminhando lado a lado com a idéia de progresso. Neste momento são criadas as Universidades de Berlim, iniciando-se o processo de fragmentação e compartimentação em especialidades fechadas, nasce o especialista moderno, que terá em suas mãos uma única ferramenta de estudo, que passa a ser denominada disciplina. Esta possui como função ser bastante definida e estabelecida, formando círculos de comunicação entre os especialistas. Repartem o infinito, ou melhor, o território do saber, criando propriedades privadas, minifúndios, minipoderes. Se por um lado, aprofunda o conhecimento, por outro se abdica a tarefa árdua de síntese, e de visão do todo, que é deixada definitivamente de lado. A disciplina tem como função reduzir tudo ao cálculo matemático e probabilístico e ao que pode ser medido. A disciplina constitui o método científico por excelência, que busca ter o conhecimento verdadeiro, claro, distinto e evidente sobre o real. A modernidade busca respostas e fórmulas para uma melhor organização de seus problemas através da disciplinaridade. Na verdade, todo o ensino moderno está calcado numa organização disciplinar, que implica uma hierarquização do conhecimento e dos sujeitos, uma destinação de espaços para os sujeitos, uma distribuição do tempo escolar, entre outros elementos. Isto ocorre porque as disciplinas delimitam um campo de saber a ser ensinado, e se valem das mais diversas formas e estratégias para sua eficácia. Foi nesse contexto que as escolas do início do século passado se organizaram, e foram ofertadas a todos os sujeitos sociais. Inúmeras instituições de ensino acabaram incorporando em sua forma de desenvolvimento tais práticas, e criaram seus currículos baseando-se nos pressupostos tradicionais de ensino, onde os saberes - ou os modos de compreender e ter acesso ao mundo - eram separados e organizados de tal modo para que se pudesse quantificar a aprendizagem de cada aluno, separadamente, e em cada disciplina. Por sua vez, a pós-modernidade tem como representante o generalista que é possuidor de um saber interdisciplinar. O saber interdisciplinar é um conhecimento que tem a pretensão à totalidade, à verdade e à qualidade do conhecimento. É responsável por conectar o saber em suas diversas partes, separadas pelo saber disciplinar, que tem por base o preceito cartesiano de dividir o máximo possível para se ter o aprofundamento necessário de cada peça desse grande mosaico que é a realidade, mas não abdica da capacidade de re-ligação de todo o conhecimento. Acredita-se assim que a pós-modernidade consiste no retorno da concepção clássica de Paidéia grega, onde a Sophia é a sua principal protagonista.
Prof. Dr. Wellington Lima Amorim
Revisor Técnico: Bel. Tiago Ribeiro Santos

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A qualidade do ensino e o desenvolvimento do país



O Profº Walter Marcos Knaesel Birkner da Universidade do Contestado, certa vez deixou em meu espírito a impressão de que não sou a única vela sozinha neste universo, que é sem sentido e comandado por velhas cegas, desdentadas e irritadas, as famosas moiras. Esta reflexão vai de encontro com o ocorrido em Chapecó, com o suposto assassinato do Profº de Filosofia Marcelino, onde se levanta tese de crime político contra este que me parece foi um Profº de Filosofia atuante em Santa Catarina. A pergunta que se faz é como práticas oligárquicas do século XIX, semelhantes a da República Velha, ainda persistem, conjutamente com todas as novas formas de desenvolvimento tecnológico no mundo globalizado? O coronelismo continua vivo e bem vivo. O que nos impede de enterrar definitivamente estas práticas? Esta é a realidade politica que assola todo o territorio brasileiro, desde as regiões consideradas recônditos, onde supostamente predomina o subdesenvolvimento, até os grandes centros, considerados exemplos de progresso. Poderíamos citar desde o interior do nordeste que resiste ao desenvolvimento espiritual, político e social do país, até o inteiror do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Ocorrências como a de Chapecó nos defrontam com uma realidade pungente: Falta-nos educação e a ignorância se apresenta como uma bomba-relógio, explodindo, a todo instante, em nossas cabeças, braços, peitos e pernas, peando nossos passos para um desenvolvimento sustentável.
Educação de qualidade é tudo de que precisamos, para nos desenvolver humanizados e sustentar um crescimento, que de fato preserve vidas na pluralidade de suas manifestações. Educação de qualidade, no Brasil, me parece uma conquista para um “braço forte”. Do poder mais alto, até a sala de aula, muito teria que ser observado, revisto e considerado, para que a educação preenchesse a lacuna que nos impede ao verdadeiro desenvolvimento. Como são muitas as facetas da carência educacional no país, vou ater-me um pouco, à questão da qualificação de pessoas, para a garantia do desenvolvimento. É juntamente com este cenário que nos deparamos com uma barreira, um grande obstáculo, que se apresenta como uma verdadeira bomba relógio, e que impede a nosso crescimento sustentável: Educação de qualidade. Cabe lembrar que os diversos professores brasileiros de todos os seguimentos – básico, fundamental, médio e superior, vêm de uma formação disciplinar. Muitos são especializados em determinadas áreas e por não irem além delas, se vêem engessados em práticas didáticas, que mais atrofiam do que universalizam o conhecimento. Desta maneira permanecem territorializados disciplinarmente em seus campos específicos, o que impede uma visão mais ampla da realidade, mas atuante e libertária.
Economistas advertem, a todo o momento, de que o Brasil não conta com pessoal qualificado, capaz de garantir um desenvolvimento sustentável. 80% dos brasileiros, concluintes do Ensino Médio não possuem as competências e habilidades necessárias para cursarem o nível superior. Não possuem sequer, as competências básicas de leitura e escrita fluentes, necessárias às situações de comunicação diárias. Neste sentido, vejo a Universidade como responsável para garantir uma educação substancial, que apoie o desdobramento de ações que desemboquem em um progresso sustentável. A qualidade do ensino na universidade ditará a diferença positiva, nos profissionais que compõem as bases da educação no país. Para que estes profissionais cheguem à sala de aula, prontos a promover o conhecimento, é preciso que haja muito trabalho, pesquisa, eficiência nos resultados e comprometimento dos docentes, é preciso ser um docente-intelectual.
Somente uma educação, voltada ao conhecimento e ao reconhecimento de si e do meio, pode preparar um jovem para atuações, que levem ao desenvolvimento civilizado de si e do meio e para ações fundamentadas na comunicação, que garantam a sobrevivência e o desenvolvimento da espécie. O desenvolvimento do país, em todas as suas significações, que o termo desenvolvimento sugere, depende da qualidade da Educação, que oferecemos às nossas crianças e jovens. Quando diminuirmos consideravelmente os crimes políticos, domésticos ou motivados por preconceitos de qualquer natureza e nos perguntarem como conseguimos chegar a isso, haveremos de dizer: “Conseguimos conquistar com um braço forte” – Educação.
Desta forma, é possível fazer uma Educação de qualidade sem transformar a Educação em puro clientelismo, mas em um produto que se desenvolve através do sentimento ético, sendo possível conscientizar o educando de que o mesmo é um prestador de serviços para a sociedade que o circunda e que deve contribuir significativamente para o desenvolvimento regional de sua cidade. Por fim, desenvolvendo as competências e habilidades necessárias entre o corpo docente e discente, tendo como instrumento o conhecimento que é dos principais meios para o verdadeiro desenvolvimento espiritual, político e social do século XXI, teremos condições necessárias para o desenvolvimento, um húmus virtuoso que liberta toda a sociedade de determinadas práticas arcaicas que só denigre nossa imagem diante do mundo e de nós mesmos.



Prof. Dr. Wellington Lima Amorim
Revisão técnica: Marluce Bezerra

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O papel do intelectual na Pós-modernidade



Este tema surge de uma reflexão a partir das palavras do Sérgio Paulo Rouanet: “Intelectual é aquele que se mete com o que não é da conta dele”. Falarei disso, partindo de uma visão ancorada na subjetividade. O ato de verbalizar, a partir de vivências, encerra subjetividade e, é a partir dela, que nos arriscamos à comunicação daquilo, que de uma forma ou de outra, nos afeta. Somente se fala a partir de uma subjetividade determinada. No entanto, se esta visão conseguir captar o universal depois da longa jornada, que o heroí-intelectual empreende, já não será mais a visão de uma subjetividade mas passará a pertencer ao todo objetivo. O intelectual é um herói que não se encaixa, nem se aplaca no comum. Desenquadrado, entrega-se, diligente, à incansável busca pelo farnel de seu entendimento. Para ser um intelectual é preciso ter sentimento de precariedade, e por isso é preciso que muitas vezes ele vá ao Hades. Ele leva uma moeda ao barqueiro para que ele o leve ao inferno. Ele encara a serpente nos olhos e fala com Tiresias. Depois retorna ao mundo dos vivos e contempla o sol. É assim que nos tornarmos crianças e nascemos de novo para a imanência deste mundo, amando os homens e odiando todos aqueles que se colocam contra os homens. Por isso, assim como Luiz Felipe Pondé, eu odeio pessoas felizes. E no facebook está cheio de pessoas felizes, todos querem demonstrar a sua suposta felicidade, quando não é a felicidade é a moralidade que aparece hipocritamente, entre estas pessoas estou eu participando da mesma hipocrisia, e quanta hipocrisia!!! Cabe lembrar que não somos felizes e nunca o seremos. Nossa condição humana é demasiadamente humana. Por isso, o intelectual é sempre uma taça que quer transbordar. Nas palavras de Nietzsche ele ajunta mel em excesso. Mas ele precisa levar seu conhecimento e sua sabedoria ao outro, para que sua taça possa esvaziar-se novamente. Para isto demanda muito tempo de leitura e dedicação exclusiva a esta tarefa. É lamentável, mas não vejo isso entre meus alunos e colegas de profissão. Conhecem quando muito, seu território de conhecimento e tem medo de ir além de seu território, ou seja, desterritorializar-se. Diferentemente do intelectual, estão sempre presos em seus terrítórios defendidos por trincheiras e morteiros 45mm. Quando lecionam, lecionam para si. São conversas com as suas subjetividades nada além disso, não se exteriorizam. E preciso ser um docente intelectual. O termômetro para saber se uma subjetividade de um docente se individua, ou melhor, se intelectualiza, é o grau de satisfação que o corpo discente tem em relação ao docente. E o grau de insatisfação dos alunos é sempre alta. O que nos faz refletir: Com quem estes docentes estão dialogando? Com o corpo discente que não é. É neste momento que o intelectual acusa os docentes que não se intelectualizam na primeira pessoa: “Eu acuso que você não possui as competências e habilidades necessárias para realizar a profissão docente”. É uma questão de honestidade é de pura ingenuidade. O intelectual é ingenuo por que nada vai mudar, para mudar é necessário que haja boa vontade, nas palavras de Kant, mas as pessoas, com raríssimas exceções, não possuem esta boa vontade, toda vontade é má e está a serviço do pensamento utilitário, no final das contas é a relação custo benefício que irá determinar suas ações. O intelectual pelo contrário sempre concebe a vida como um fim em si mesmo, não como um meio. Eis a grande tragédia humana, pois o Ser intelectual é baseado na pura utópia e na ingênuidade, ou seja, o intelectual caminha sempre em direção ao um abismo.


Profº Drº Wellington Lima Amorim

domingo, 28 de novembro de 2010

Falando de política e subjetividade

O sujeito é constituído por um misto de ideias e afetos. Desde que nascemos, o cultural nos imprime suas marcas, impondo uma constante negociação entre nosso eu, em processo de construção, e aquilo que dele exigem os ideais culturais. O que acontece? Muito se tem teorizado sobre o excesso de pessoas que apresentam sintomas como anorexia ou bulimia, um exemplo da influência do coletivo sobre o individual, do social sobre o pessoal. Atualmente, o excesso desses padecimentos psíquicos tem como contraponto o ideário cultural de magreza idealizado nos corpos modelados e transformados pela mídia. Anorexia e bulimia mostram a interação entre o individual e o coletivo. A cultura em que a pessoa está inserida, no caso, a de um padrão estético de magreza, faz com que ela busque essa identidade social para si mesma. Como o homem da pólis, com sua dimensão singular intensiva, desejante e conflitiva, o bulímico ou anoréxico, que se encontra na sociedade, quer se inserir e ser aceito no meio social. Considera-se aqui, pólis em seu sentido original e atual, modelo das antigas cidades gregas e sinônimo de cidade. A pólis é a base da civilização Ocidental. O homem da pólis é o homem que pode se organizar e ter direito à palavra dentro de sua comunidade, é ativo e tem conhecimento de sua autonomia. A formação de um político envolve uma reflexão pessoal ética, política, pessoal, institucional familiar, social... O político deve ter, na base de seu fazer cotidiano, o desejo de transformar a vida daqueles que em sofrimento, procuram-no pedindo cuidados. O político também precisa estar consciente de que o fato de ser marcado pelos sentidos culturais e ter um posicionamento pessoal dentro da pólis, suas escolhas políticas, seu time de futebol, sua religião, seus hábitos alimentares ou mesmo suas preferências literária, musical... não lhe dá o direito de saber o que é melhor ou pior para todos. Ele não pode levar consigo as insígnias culturais que poderão moldar a subjetividade dos outros.  Mas então, do que se trata essa marca de base que o político traz a partir da pólis como desejo fundamental? Como se pode desejar a transformação sem trazer e influenciar o outro com seus conteúdos pessoais, seus sentidos próprios de mundo e de vida? A relação entre o singular e o coletivo é complexa porque as instituições sociais, incluindo aí a família, formatam e determinam, em parte, as subjetividades, mas ao mesmo tempo são as subjetividades e seus coletivos que estruturam as instituições sociais. O movimento que existe entre instituir e ser instituído ocorre de maneira não consciente de geração em geração e é constante. Assim, as instituições submetem as subjetividades a sentidos culturais pré-existentes fornecendo um primeiro continente aos processos de construção do eu. Por outro lado, o processo constante de instituir-se promove um questionamento do sentido coletivo existente, abrindo a possibilidade de criação de novos universos de referência de mundo para a existência singular, individual. Onde mais buscar os vetores que possam orientar os destinos de nossas subjetividades políticas? O que seria o biopoder? Biopoder, conforme Foucault, é o poder estatal de controle da vida dos indivíduos, que se implementa pela via eficaz do autocontrole subjetivo. Tal prática é capaz de criar normas e discursos para capturar a vida e dominar o desejo do indivíduo. A tarefa política da atualidade é resistir à prática do biopoder. Poder-se-ia aproximar a Política da ideia de sociabilidade e de ética? Atualmente, vivemos momentos de obrigatoriedade de prazer ininterrupto. Com ausência de ideais culturais no contexto sócio econômico consumista de nossos dias, a paixão se expressa sob formas extremamente violentas. A mediação de conflitos através do diálogo encontra-se, hoje em dia, em profundo declínio. Práticas políticas têm se mostrado insuficientes no mundo do terrorismo, da exclusão das populações desvalidas ou da ampla e documentada corrupção na política. Ainda é Michel Foucault que radicaliza, estabelecendo que o homem é o animal em cuja política, questiona a sua própria vida. Neste contexto, é possível compreender a íntima convergência entre os interesses psíquicos de dar significado à vida e os propósitos políticos do sujeito. Resistir às normas do poder e aos discursos do saber vigentes seria, segundo o filósofo francês, a produção política por excelência. E a dimensão política do sujeito? A razão se submete ao desejo inconsciente e a realidade se subordina ao prazer, segundo Freud. Se, tradicionalmente, dar significado à vida é função da razão e da consciência, pergunta-se: como compreender, a partir de Freud, a responsabilidade política do indivíduo? Com o atual desinvestimento cultural dos conceitos, das ideologias e da ética, como conceber neste mundo globalizado, a íntima convergência entre subjetividade e Política? Qual é a forma de poder que controla a totalidade da vida dos indivíduos, submetendo as pulsões e os desejos e fazendo funcionar a máquina de consumo capitalista? Qual é o poder exercido sobre a vida com o propósito de controlá-la, submetendo-a aos cálculos e estratégias de domínio? É o Biopoder. É o Biopoder que mostra como a vida foi submetida às regulamentações impostas pelo Estado, e como este foi aos poucos assumindo a responsabilidade de geri-la, regulamentando a vida da população e implementando estratégias de inclusão e ordenamento. O Biopoder surge sob a tutela do Estado. E, aos poucos, se difunde como exercício por toda a sociedade, tornando-se o tipo de poder predominante ao longo do sec. XX. Encontramo-nos agora em plena era do Biopoder. Controlar a vida, gerir o crescimento populacional, ordenar o comportamento, a sexualidade, a saúde, inventando medidas normativas com o propósito de capturar a vida, dominando o desejo do ser vivente, são estratégias que, segundo os especialistas, atestam a presença deste biopoder na contemporaneidade. Se o poder tomou para si a tarefa de gerir a vida, se a vida foi incluída nos cálculos do poder, será que o destino da política atual consiste na capacidade da vida de resistir ao poder? Política, sabe-se, só sobrevive onde houver resistência, tensão, embate, desentendimento. Resistir é criar possibilidades de vida social para além das estratégias de dominação, criando novos espaços de liberdade. Neste contexto, uma Biopolítica se define com um poder que se exerce dominando a vida. Um poder que faz viver segundo os seus cálculos.Um poder que faz existir uma vida que resiste a tais cálculos, criando possibilidades inéditas de vida. Enfim, na perspectiva mundial, as fronteiras tendem a desaparecer obedecendo à lógica de um capitalismo sem limites. O mundo globalizado, a mundialização do capital, exigem, por parte dos poderes, um controle cada vez mais minucioso do movimento dos indivíduos. A soberania tende, cada vez mais, a perder a transparência. O poder torna-se difuso, fazendo funcionar a máquina mundial de mercado, regida pelo imperativo de consumo. Seria o político capaz de reinventar sua vida, como disponibilidade ao outro, disponibilidade para viver e acompanhar a experiência criativa de busca de novos territórios para a experiência no mundo? E a pólis... cidade politicamente organizada, formada pelos cidadãos livres e iguais? E a violência em nome da paz? E a subjetividade do cidadão?

(*) psicóloga clínica

sandrasba@uol.com.br

Imprevisto x Improviso

Os mais sistemáticos que me perdoem, mas improvisar é fundamental. Não sou contra o planejamento. Sou o primeiro a defendê-lo. Estou apenas lembrando que a maioria deles, em algum momento, “fura”, e quando isso acontece, entra sua capacidade de criar. Criação pode também significar improvisação. A rigor, a língua portuguesa dá ambíguas definições para o imprevisto, mas, na prática, ele tem um papel importante nas transformações para a excelência. O problema é que viemos de culturas multidisciplinares que nos ensinaram que um bom plano é o suficiente para evitarmos erros e gerarmos acertos. Ainda vaga a sensação de que a estratégia perfeita é aquela que não muda o que já se combinou. E que a coisa funciona desse ou daquele jeito. A sociedade nos cobra posições bipolares e não favorece o “depende”, o relativo, a decisão personalizada e há até o preconceito de interpretar essa posição como uma postura indecisa. Você sabe que não é bem assim. A nossa história genética está repleta de imprevistos e improvisos. São fatos repentinos, acasos, incidentes e contratempos que nos surpreenderam e que nos levaram a um reposicionamento, muitas vezes, de vida. As maiores empresas do mundo são as que possuem os melhores planejamentos e as melhores improvisações. São rápidas na resposta ao imprevisto e criam formas novas de se fazer. Fazem do inesperado oportunidades para se ganhar um mercado pioneiro. Por isso são grandes. Não perdem tempo com o problema e investem tempo com a solução. São flexíveis e não focam apenas no culpado, e sim na melhor alternativa para transformar o fracasso na busca pelo sucesso do todo. Mas como acabar com a crença de que improvisar é “quebrar o galho”? Basta chamar o responsável pelo improviso: o imprevisto. Quando algo sai do planejado, é sinal de que você terá que buscar outras ferramentas instantâneas no seu mapa mental para que o objetivo seja cumprido. Respeitando os processos éticos, o foco deve ser no resultado. O mundo é muito imprevisível! Imprevistos acontecem o tempo todo nos fazendo sentir fortes emoções. Não prevê-los não é, necessariamente, falta de visão ou conhecimento. Evidentemente, quanto mais se tem de bagagem cultural, experiência de vida, informação e formação, mais se pode prever o que acontecerá, mas nem sempre é o suficiente. Em outras palavras, um planejamento ruim é quando não prevê o previsível, aquilo que tinha uma razoável chance de acontecer. Porém, o planejamento não tem a obrigação, por regra, que prever o imprevisto, o inesperado. E quando o que ninguém esperava acontece, improvise. Outro engano em relação ao improviso é entender que é o ato de inventar por inventar. Improvisar é nada mais do que juntar um pouco de boa vontade com muitas habilidades dispersas. Ninguém cria com base no nada. Para se ter essas competências é preciso acumular conhecimentos múltiplos, técnicos e holísticos, para que, no tempo ideal, faça deles uma arte precisa para a sobrevivência: a improvisação.

(*) publicitário, professor universitário, palestrante e consultor de Comunicação e Marketing

marcos.zani@gmail.com




A era do vazio

Estimado leitor, na letra da música Baader-Meinhof Blues, Renato Russo dizia: já estou cheio de me sentir vazio, evidenciando uma das mais avassaladoras contradições do mundo contemporâneo (ou pós-moderno, como preferem alguns). Estamos, de um lado, cercados de ofertas de todos os tipos, mas, ao tomarmos contato com essas ofertas, nada nos satisfaz e, por isso, sentimos sempre um imenso vazio. Num mundo de excessos, as membranas que separam as esferas da vida humana são muito tênues, provocando no sujeito aquilo que Felix Guattari chamou de desterritorialização, na qual o sentimento de que somos eternos estrangeiros em nossa própria terra é permanente (a propósito disso, assista ao ótimo filme Terra Estrangeira, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas). Perceber esse fenômeno é tarefa muito simples, basta olharmos a nossa extrema dificuldade em separarmos o certo e o errado, a realidade e a virtualidade, a vida social e a vida privada. Como pano de fundo dessa confusão toda está o que alguns filósofos contemporâneos estão chamando de Era da Abundância. Essa abundância dá o ar da sua graça, de maneira inconfundível, sobretudo se se tem como objeto de análise a revolução que as mídias digitais estão provocando – a título de exemplo, a cada minuto, em todo mundo, 13 horas de vídeo são disponibilizados no YouTube. Mas vejamos como um dos mais lúcidos críticos da atual sociedade se refere a toda essa fartura de opções da vida contemporânea. Com a palavra, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na sua obra Modernidade Líquida: O inventário das maravilhas que a vida pode oferecer é muito agradável e satisfatório. Entretanto, o mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. A sensação de frustração é, pois, inevitável. E arremata, de forma precisa, Bauman: A infelicidade dos consumidores deriva do excesso, e não da falta de escolha. A quantidade de opções tornou-se, assim, um enorme problema. Apenas à guisa de ilustração, permitam-me reportar ao ano de 1983, quando conheci a revista Somtrês, editada por Maurício Kubrusly e publicada pela Editora Três. De 1979 a 1989, ela foi a única publicação dedicada à música de que dispúnhamos. Suas páginas traziam desde biografias dos artistas da moda até análises depuradas dos últimos lançamentos de equipamentos de áudio. Pois bem, conseguir um exemplar da Somtrês era quase uma epopeia, pois, sendo a única do ramo, seus exemplares eram muito disputados nas bancas. Recordo-me que somente na banca da Rodoviária era possível encontrá-la. O que acontece hoje? Há uma enorme profusão de revistas de todos os assuntos, espalhadas por gôndolas (reais ou digitais), esperando que um leitor supere a inércia provocada pelo excesso e, por fim, decida-se por uma delas. Para finalizar, cito o filósofo francês contemporâneo Gilles Lipovetsky, autor do livro que dá título a esse artigo. Utilizando-se de uma metáfora culinária, ele diz: O self-service e o atendimento à la carte designam o modelo geral das sociedades contemporâneas, que veem proliferar de modo vertiginoso as fontes de informação, abrindo-se cada vez mais o leque de produtos expostos nos centros comerciais, nos hipermercados e nas megalojas especializadas. Assim, a sociedade pós-moderna se caracteriza por uma tendência global de reduzir-se a atitudes autoritárias e dirigistas e, ao mesmo tempo, a aumentar a oportunidade de escolhas particulares, a privilegiar a diversidade e a oferecer fórmulas. Diante disso, o nosso esforço de todo dia consiste em não nos sentirmos vazios tendo à nossa disposição o mais fastuoso dos banquetes.

Bom domingo a todos.

 
(*) doutorando em História e professor do Colégio Cenecista Dr. José Ferreira, da Facthus e da UFTM

mozart.lacerda@uol.com.br

O economista das revoluções pós-modernas

"Na sociedade pós-industrial, pode-se produzir ao difundir conteúdos, digitalizar experiências, inventar linguagens, comunicar-se criativamente. A informação esquiva-se do controle pós-fordista — copyright e patentes — e se dispersa, incontrolável, pelo corpo social. Tempos de democratização da informação, midialivrismo, ativismo internauta, Wikipédia, tuíter e “Wikileaks”, escreve Bruno Cava, em artigo publicado no sítio Outras Palavras, 06-08-2010. Segundo ele, "se o capitalismo tenta governar hoje as vidas através da pobreza difusa, do risco e do medo, é dessa mesma crise, da enorme classe de precários e internautas-artistas, que podem se articular as redes de resistência e a transformação".

Bruno Cava é engenheiro e Bacharel em direito, participa da Universidade Nômade e edita a revista Enxame.

Eis o artigo.

Christian Marazzi é um economista pós-moderno.

O leitor pode até torcer o nariz com o adjetivo. Afinal, com tantas idas e vindas ao redor dele, pós-moderno pode ser qualquer coisa. De filosofias maneiristas a niilismos dogmáticos, de ecletismos dândis a relativismos moderninhos. Talvez valha mesmo a impostura: pós-moderno, no fundo, é o que se quer de mais muderno. Ademais, tampouco se pode precisar o “moderno” antes do “pós-” — ou a modernidade, ou o modernismo. Três termos por sinal distintos. Tem autor aí dizendo que jamais fomos, sequer, modernos. Que dirá pós-modernos. Apesar disso, em 1979, Jean-François Lyotard sedimentou um significado para pós-moderno. O seu livro A Condição Pós-Moderna marcaria o debate das três décadas seguintes. Para o filósofo francês, a condição pós-moderna se caracteriza pela descrença irremediável nas metanarrativas. As narrativas do progresso, do desenvolvimento, da civilização simplesmente não convencem mais. Doravante, o retorno à comunidade de valores, aos universais e às utopias não passa de tentativa inautêntica e ineficaz. As ciências e a filosofia demonstraram a impossibilidade de uma narrativa capaz de explicar e abarcar a multiplicidade do mundo. Reinam a ambigüidade, o paradoxo, o paralogismo, a dissolução dos grandes esquemas. Nesse sentido, o pós-modernismo deslegitimou duas das mais corpulentas narrativas do século 20: o marxismo e a psicanálise (alvos prediletos de Michel Foucault, por exemplo). A primeira estruturada, grosso modo, ao redor da dialética histórica, do planejamento como modelo de gestão econômica, da centralidade do modo de produção como fator de explicação e intervenção. A segunda em cima do teatrinho edipiano, e do inconsciente como mola propulsora do indivíduo e da sociedade. A primeira abalada desde o estruturalismo francês dos anos 1960. A segunda, decisivamente a partir de O Anti-Édipo (1972), por Gilles Deleuze e Felix Guatarri. O pós-moderno do pensamento de Christian Marazzi igualmente recusa as metanarrativas – nele também não há esquemas rígidos ou teleologias supra-históricas – mas não se furta à narrativa. Em O Lugar das Meias, a sua principal obra, publicada em francês em 1994 e reeditada no Brasil somente quinze anos depois, o economista não se esquiva de narrar uma história, para nela identificar rupturas e viradas, que definem configurações do capitalismo e de sua resistência. A obra narra a exaustão dos velhos programas e avirada paradigmática do capitalismo. O pós-moderno exige outro ciclo de lutas. A narrativa de Marazzi acompanha a corrente de pensadores materialistas que relacionam o pós-moderno ao surgimento de um novo modo de produção, logo uma nova sociedade. Pensadores como Alain Touraine ou Daniel Bell, para quem a sociedade pós-industrial tem por força econômica vital o conhecimento e a informação. E principalmente como Antônio Negri, filósofo que é a principal referência do autor. Ao longo da agitada década de 1970, Marazzi e Negri foram ativistas do grupo Autonomia Operária, que congregava intelectuais não-alinhados à ortodoxia do Partido Comunista Italiano (PCI). Esse círculo operaísta criticou ferozmente o pacto neokeynesiano entre a burguesia industrial-desenvolvimentista e um sindicalismo obsoleto, — que ainda operava sob categorias do marxismo industrial, fordista e gramsciano. Esta conjuntura consolidou-se com a famosa aliança entre a Democrazia Cristiana e o PCI, contra a qual se insurgiu toda a extrema-esquerda italiana, culminando no assassinato de Aldo Moro em 1978. Ficou comprovado que nem Marazzi nem Negri tiveram qualquer participação na ação, executada por um aparelho das Brigadas Vermelhas, embora tenha sido o pretexto para a perseguição generalizada de intelectuais de esquerda, no ano seguinte. O Lugar das Meias, como conseqüência, atribui a parcela da esquerda o erro de trabalhar com conceitos e práticas que não fazem mais sentido dentro da nova configuração do capitalismo: o pós-moderno. A esquerda girava em falso porque estava presa a uma concepção de trabalho, distribuição e resistência, que eram pertinentes na antiga sociedade industrial, mas não na sociedade pós-industrial. Na esteira de Antônio Negri, Marazzi narra que, nas décadas de 1960 e 1970, exauriu-se o potencial transformador das lutas sindicais e estudantis dentro do formato tradicional de pressão ao estado por mais empregos, direitos do trabalho formal e desenvolvimento industrial. Houve aí uma virada paradigmática, que conduziu o capitalismo do moderno ao pós-moderno, do fordista ao pós-fordista, do capitalismo industrial ao cognitivo. O pós-moderno passou a exigir outro ciclo de lutas. Singular nessa matriz negriana de O Lugar das Meias, a posição das lutas como fator reconfigurador do capitalismo. A emergência de um novo modo de produção deve-se menos à lógica interna do capital do que às lutas democráticas por mais liberdade. As lutas vêm antes: o capital não se renova, ele é forçado a renovar-se. A cada etapa capitalista corresponde um ciclo de lutas, que afirma outro mundo e assim revoluciona o sistema. Nesse sentido, a passagem do moderno ao pós-moderno significou uma conquista dos trabalhadores; ao invés de mera captura e anulação das forças revolucionárias pela classe dominante, como profetizado de maneira pessimista, e até apocalíptica, por alguns intelectuais da esquerda. Antes, na modernidade, tinha-se a economia baseada na unidade da fábrica, na divisão técnica do trabalho, na massificação do consumo, no modelo corporativo tradicional, na lei da oferta e da procura, na prevalência do “setor produtivo de base” (industrial), na interpenetração e cumplicidade entre estado e burguesia industrial. A educação hierarquizada, o sistema de saúde, a previdência, a democracia parlamentar e partidária, tudo isso se coordena nesse modo de produção, constituindo, no conjunto integrado de relações de poder, a sociedade industrial, a tal modernidade ocidental. Não queriam simplemente melhores salários, mas sobretudo não ser operários. Daí os slogans de maio de 68:

“Não trabalhar jamais”, “Autogestão da vida quotidiana já”!

O pós-moderno, por sua vez, irrompe do ciclo de lutas dos anos 1960 e 1970, cujo mote essencial era romper essa lógica industrial e moderna de trabalho. Opõe-se a ele como um todo, afirmando outro modo de vida. O cidadão não queria mais simplesmente melhores salários e direitos trabalhistas, mas sobretudo não ser operário, não ser instrumentalizado num mundo-fábrica hierarquizado e espoliatório. É nesse prisma que podem ser lidos slogans de maio de 1968, como o “Não trabalhar jamais!” ou “Autogestão da vida cotidiana já!”, bem como o célebre pôster em que as pessoas são retratadas como engrenagens de uma grande máquina. Ainda na narrativa de O Lugar das Meias, o ciclo de lutas dos anos 1960 e 1970 culmina num novo modo de produção. A narrativa anuncia o seu capítulo pós-moderno. O regime de produção torna-se, destarte, pós-fordista. Implica profundas transformações na sociedade, inaugurando a sociedade pós-industrial. Como resultado de lutas globais, essa sociedade mundializa também os fluxos socioeconômicos, transpondo as fronteiras dos estados-nações. Como conseqüência, recompõem-se, em caráter global, tanto as classes dominantes (a “aristocracia” financista e multinacional), quanto redes de militância, colaboração e produção livre (a multidão). Para Marazzi, no pós-moderno aparece uma nova linguagem social, potencializada pela intensificação da comunicação. As redes comunicativas entram na esfera da produção. Tornam-se vitais nos processos de valorização e circulação dos bens. Um capitalismo de redes. Quem detém a informação, produz mais e melhor. Inverte-se a lei econômica tradicional: não mais a oferta cria a sua demanda, mas a demanda é quem inventa a sua oferta. A teoria do valor deve ser remodelada para captar o trabalho imaterial. Os direitos autorais, as patentes, o copyright e o marketing passam a agregar mais valor aos bens do que o custo (industrial) de fabricação. A fluidez do novo capitalismo exige reações rápidas e enorme adaptabilidade. A cadeia produtiva fica cada vez mais enxuta (“lean production”). Demite, flexibiliza contratos de emprego, terceiriza (“out-sourcing”). Elimina grandes estoques, expele métodos e processos onerosos, agora chamados externalidades. Pretende atender às demandas em tempo zero (“just-in-time’). A generalização das externalidades, associada ao hiper-crescimento do setor terciário, faz com que a fábrica dissemine-se na sociedade. Ao invés do regime disciplinar do chão-de-fábrica, nasce uma sociedade de controle que modula a aplicação do poder e captura a vida mediante dispositivos difusos e anônimos. Fábrica por assim dizer social, porém controlada e socialmente desprotegida. Implode-se o regime fordista de direitos e fragmentam-se os cidadãos em classes e subclasses. No campo da formulação teórica, o neoliberalismo substitui o desenvolvimentismo do período anterior. E serve de ferramenta preferencial para a direita pós-industrial. Enquanto isso, incapaz de reconhecer a mutação profunda no trabalho, parte da esquerda reedita o keynesianismo, propondo um retorno ao período anterior. Neokeynesianismo baseado na soberania nacional, no “setor produtivo de base”, no emprego formal — não à toa, termina por servir ao projeto reacionário da burguesia nacional-desenvolvimentista destronada. Se o capitalismo quer governar as vidas impondo a pobreza difusa, o risco e do medo, é dessa crise que podem se articular as redes de resistência e a transformação Mas o modo de produção induz a desarticulação do “welfare state”. A sociedade pós-industrial conforma com um estado-crise. Vive-se um capitalismo de catástrofe iminente. Risco de desemprego, de recessão, de colapso. Festim dos grupos especulativos. O neoliberalismo pauta-se pela gestão do risco, traduzida no economês financeiro. Indicadores financeiros, como o risco-país e as taxas de juros, determinam as técnicas de governo (e os noticiários), concentradas em impedir que o risco saia das margens toleráveis. Daí a prioridade passar à estabilização financeira: estabilidade da moeda, geração de superávit e eliminação de custos fixos do estado. Na sociedade pós-industrial, inexiste separação entre economia real (industrial e serviços) e economia financeira (gestão do risco, especulação). Nela, não é que os mercados ocupem o lugar do Estado, mas é o próprio Estado que se reconfigura, política e juridicamente, para servir de arcabouço e garantia para o funcionamento dos mercados. Estado e mercado são unha-e-carne e é preciso inventar alternativa a um e outro. Atravessá-los em diagonal. A narrativa de Marazzi conclui com a identificação do ciclo de lutas correspondente ao pós-moderno. O caso é que existe um impasse no modelo atual de capitalismo. Agora, para produzir valor, ele precisa promover a vida social, fazer circular afetos e valores, multiplicar os nós comunicativos. Necessita incentivar redes sociais, as mesmas que também se articulam em trabalho livre e militância global. Assim, o novo operário social torna-se cada vez mais independente dos circuitos de acumulação. Tome-se o exemplo do telefone celular. A lucratividade das companhias situa-se mais no seu uso do que na compra dos aparelhos. Mas o que define o uso? A vida. Tanto mais valor será produzido quanto mais relações sociais ocorrerem. Este, o modelo da “new economy”. Na nova economia, a vida está investida ela mesma nos processos produtivos. Como se pode produzir sem o recurso a grandes aparatos fabris, os meios de produção tornam-se acessíveis à maioria. Na sociedade pós-industrial, pode-se produzir ao difundir conteúdos, digitalizar experiências, inventar linguagens, comunicar-se criativamente. A informação esquiva-se do controle pós-fordista — copyright e patentes — e se dispersa, incontrolável, pelo corpo social. Tempos de democratização da informação, midialivrismo, ativismo internauta, Wikipédia, tuíter e “Wikileaks”. Se o capitalismo tenta governar hoje as vidas através da pobreza difusa, do risco e do medo, é dessa mesma crise, da enorme classe de precários e internautas-artistas, que podem se articular as redes de resistência e a transformação. Nada mau para uma narrativa pós-moderna. Marazzi demonstra que as políticas democráticas também funcionam com a força da narrativa. Que o pós-moderno significa menos a dissolução final das narrativas do que a sua multiplicação, a sua explosão em mini-narrativas e nos múltiplos ciclos de lutas. Narrativas agora menos pretensiosas e grandiosas, escritas e reescritas ao sabor das aventuras militantes e movimentos sociais. Na verdade, a erosão da narrativa-mestra fortalece a luta. Pois, além de evitar a mistificação da história única e absoluta da liberdade e prosperidade, também deslegitima o suposto triunfo do mercado como ponto final da História. Se, com Marazzi, a constituição do sujeito político ainda dependa de força criativa da narrativa, temos a ousadia de juntar duas palavras fora de moda para lutar por uma revolução pós-moderna.

Nota: MARAZZI, Christian, O lugar das meias: a virada lingüística da economia e seus efeitos sobre a política, tradução Paulo Domenech Oneto – Rio de Janeiro: Civlização Brasileira, 2009. Coleção “A Política no Império”.

As ''invenções'' dos consumidores

Há pouco tempo, foi retomado na Itália, pelas Edições Lavoro, o livro "A invenção do cotidiano" (Vozes, 2000), de Michel de Certeau, que, publicado há 30 anos na França, questionou e colocou em destaque os gestos criativos com os quais a vida dos indivíduos é tecida. Mas alguns livros recentes mostram como o sistema comercial muitas vezes soube englobar essas táticas de oposição. A análise é do economistas e sociólogo italiano Vanni Codeluppi, professor da Faculdade de Ciências da Comunicação e de Economia da Universidade de Modena e Reggio Emilia. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 17-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Há 30 anos, Michel de Certeau publicou na França "A invenção do cotidiano", uma obra em dois volumes que, segundo algumas opiniões, pode ser considerada revolucionária. A obra apresentava os resultados de uma pesquisa interdisciplinar e plurienal dirigida pelo próprio De Certeau e reavaliava tudo o que existe de criativo no fazer da cotidianidade, isto é, naquela dimensão onde vive e se manifesta todos os dias aquele "homem comum" ao qual o estudioso dedicou o seu trabalho expressamente. Hoje, passadas três décadas, é lícito perguntar-se o que ficou dessa obra, isto é, se ela é capaz de interpretar também os processos de mudança que estão ocorrendo nas atuais sociedades hipermodernas, um quesito ao qual é possível tentar dar uma resposta, fazendo também recurso a alguns livros publicados nos últimos tempos. O sucesso mundial de "A invenção do cotidiano" foi notável. A obra teve uma tradução ao inglês em 1984, em espanhol e japonês em 1987, em alemão em 1988. Na Itália, pelo contrário, 20 anos tiveram que passar para que, em 2001, uma pequena editora – as Edições Lavoro – publicasse a obra, mas só o primeiro dos dois volumes, "Arts de faire", escrito diretamente por De Certeau, o que diz muita coisa sobre as dificuldades que uma obra radical como essa encontrou no nosso país. Apesar disso, também na Itália, "A invenção do cotidiano" (que retornou às livrarias recentemente na mesma tradução de Mario Baccianini e com a introdução original de Alberto Abruzzese, à qual foi acrescentado um prefácio de Michel Maffesoli e um posfácio de Paola di Cori) tornou, ao longo dos anos, um texto de culto.



As astúcias do prazer



Se "A invenção do cotidiano" pode ser considerado um livro revolucionário, é graças à obstinada vontade do seu autor de colocar em evidência o valor da criatividade que se manifesta nas pessoas comuns e em toda a esfera da cotidianidade. Na verdade, a Escola de Birmingham já havia iniciado, há alguns anos, um trabalho análogo de reavaliação daquela atividade de produção de significados que caracteriza os indivíduos. E antes ainda houve na França o trabalho pioneiro do filósofo Henri Lefebvre, que havia colocado sob observação, ainda a partir dos anos 40, o papel central desenvolvido pela vida cotidiana nas dinâmicas de reorganização neocapitalista e de reprodução das relações de reprodução. De Certeau, porém, foi o primeiro a se concentrar nos processos criativos desenvolvidos pelas pessoas comuns e a atribuir explicitamente um grande valor a esses processos. O estudioso falava frequentemente de "produção dos consumidores", e disso derivou aquele conceito de "consumo produtivo", que é hoje largamente compartilhado no âmbito dos estudos sobre o consumidor. Segundo De Certeau, de fato, os consumidores utilizam qualquer coisa que possam encontrar no contexto em que agem para dar vida a um incessante trabalho de "fabricação" de significados pessoais. O resultado desse trabalho não são objetos concretamente visíveis, nem produtos que possam ter uma colocação no mercado. Trata-se de re-elaborações que permanecem escondidas e silenciosas, até porque são geralmente cobertas pela grande quantidade de mensagens criadas paralelamente pelo sistema da produção. De Certeau, portanto, propôs que se considerasse a atividade de recepção não como um processo passivo, mas como um processo ativo ao longo do qual o destinatário de toda mensagem (de consumo, midiática, urbanística), astutamente e usando tudo o que está disponível segundo a sua vontade, se emancipa daquele papel subordinado ao qual o impelem aqueles que detêm o poder no sistema econômico. O destinatário pode, portanto, ser considerado uma espécie de viajante em movimento dentro de um espaço que é definido por outros, os quais são seus legítimos proprietários. Para De Certeau, o ato de leitura é exemplar. À primeira vista, parece ser um momento de notável passividade do indivíduo, que permanece imóvel e em silêncio, mas trata-se, pelo contrário, de "uma produção silenciosa: um andar à deriva através da página, uma metamorfose do texto mediante o vagar do olhar, uma improvisação e uma espera de significados deduzidos de algumas palavras, um ultrapassamento dos espaços escritos, uma dança efêmera". Isto é, o leitor "insinua as astúcias do prazer e de uma reapropriação no texto do outro: caçador furtivo, ele se deixa transportar por isso e se faz plural como tantas vozes". Por isso, o indivíduo, para De Certeau, é fundamentalmente um "caçador furtivo", e a sua ação se baseia principalmente em um "trabalho clandestino", isto é, um trabalho escondido, disperso, marginal e oportunista. Na realidade, se pensarmos no consumidor de hoje e no papel por ele desenvolvido, é evidente que estamos diante de um trabalho escassamente visível, mas nada marginal. Ele se reveste, de fato, de um papel central dentro dos processos produtivos, e isso também se deve ao fato de que, com relação aos tempos de De Certeau, o contexto social mudou profundamente. A cultura alta e a cultura baixa se entrecruzaram a tal ponto que é difícil distingui-las. E os indivíduos, graças às novas tecnologias produtivas e comunicativas, estão sempre mais comprometidos a construir aquilo que consomem ou a consumir experiências possíveis só quando elas assumem o papel de co-protagonistas dos processos produtivos. Depois de De Certeau, falou longamente sobre trabalho produtivo do consumidor, mas essa questão foi analisada pela primeira vez, de maneira aprofundada, por Marie-Anne Dujarier no recente livro "Il lavoro del consumatore. Come coproduciamo ciò che compriamo" {O trabalho do consumidor. Como co-produzimos aquilo que compramos] (Ed. Egea, 218 páginas). Segundo a socióloga francesa, a gama dos tipos de trabalho que podem ser desenvolvidos pelo consumidor é extremamente variada, mas pode ser dirigida a três modelos principais: a autoprodução direta, a co-produção colaborativa, e o trabalho de organização. No primeiro caso, relativo principalmente à distribuição e ao comércio, a empresa busca descarregar tarefas e custos sobre o consumidor, fazendo com que este execute operações que oportunamente simplificou, para que sejam levadas a termo. No segundo caso, que se refere aos âmbitos onde o tratamento das informações e a criatividade (mídia, publicidade, comércio, arte) dominam, o consumidor se oferece para trabalhar com uma empresa com o objetivo de obter desta um gratificante reconhecimento pelo seu empenho. Ele lhe fornece, portanto, informações, comportamentos e criações pessoais. No terceiro, por fim, o consumidor busca encontrar soluções práticas e aceitáveis para as contradições políticas, sociais, morais e subjetivas que encontra nas suas atividades de consumo. Trata-se, portanto, de um modelo que pode estar presente em todos os âmbitos produtivos.

O uso da ironia.

Esses três tipos de trabalho podem dar ao consumidor a sensação de ter um papel mais autônomo, mas neste caso é exatamente o contrário. Segundo Dujarier, o consumidor é "objetivamente mais instrumentalizado, controlado e dependente do sistema comercial", porque o fato de considerar o indivíduo que consome como um sujeito ativo não comporta que esse indivíduo possa ter um poder tal que lhe permita ser autônomo e totalmente livre para se expressar. Certamente, graças principalmente às possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias comunicativas, hoje é possível participar de numerosos processos de re-elaboração dos produtos e das mensagens a eles relativos. Trata-se, porém, de escolhas realizadas dentro de possibilidades rigidamente definidas. Os consumidores, portanto, estão mais co-envolvidos nos processos produtivos, mas continuam permanecendo vinculados pelos limites próprios do seu papel. E, portanto, são perfeitamente funcionais ao operar do sistema capitalista. De Certeau também atribuía ao trabalho do consumidor um significado de oposição ao sistema. Isto é, defendia que o consumidor pode aderir de maneira tática aos conteúdos que lhe são propostos (as estratégias) e pode fazer isso, por exemplo, estabelecendo uma relação de tipo irônico com esses conteúdos. Contrapunha, assim, as táticas do consumidor às estratégias de quem detém o poder no sistema econômico e pretendia, consequentemente, atribuir a quem consome uma possibilidade de libertação pessoal por meio de uma espécie de "guerrilha semiológica". Mas o que está acontecendo hoje é que as táticas atribuídas por De Certeau ao consumidor são paradoxalmente empregadas pela sua contraparte. Marcas como Diesel ou D&G, por exemplo, fazem uso constante da ironia para ter sucesso no mercado, enquanto o emprego das táticas é práxis corrente na chamada "guerrilha de marketing" e na atividade comunicativa das grandes empresas. As quais, justamente como aquele consumidor do qual De Certeau falava, buscam explorar as ocasiões e os momentos particularmente propícios. Por outro lado, como bem revelou Adam Arvidsson no livro recém traduzido em italiano "La marca nell'economia dell'informazione. Per una teoria dei brand" [A marca na economia da informação. Por uma teoria das marcas] (Ed. FrancoAngeli, 187 páginas), as dinâmicas de funcionamento das economias contemporâneas baseiam-se fundamentalmente na capacidade das marcas de desenvolver uma ação de tipo relacional. Isto é, encontramo-nos dentro de um "capitalismo cognitivo" porque são as marcas que produzem valor, assim como no capitalismo industrial quem desenvolvia essa tarefa era a fábrica. Se ela controlava os processos de produção internos a ela e, portanto, a sua força de trabalho, agora as marcas desenvolvem a mesma função sobre toda a sociedade, que se torna uma espécie de "fábrica social". Portanto, é fora delas que elas podem acumular valor explorando o trabalho cotidianamente desenvolvido pelos consumidores e pela opinião pública em geral. E é aqui que podemos dizer que se desenvolvem os principais processos produtivos contemporâneos. Isso é possível graças à crescente midiatização da vida social e do consumo que caracteriza as sociedades hipermodernas. As marcas não devem fazer outra coisa que tentar agir na qualidade de meios de comunicação, isto é, como interfaces, como ambientes autônomos onde é possível estabelecer uma conexão entre os produtores e os consumidores. Com o objetivo de transformar em valor econômico tudo o que ganha vida na sociedade, o superávit de inovações e relações sociais provenientes dos consumidores. Porém, deve-se verificar a conclusão que Arvidsson extrai da análise desse processo, isto é, que a centralidade assumida pelas marcas, apesar de envolver em profundidade todos os consumidores, deve ser considerada como um sintoma de fraqueza da capacidade de controle do capitalismo. O qual, depois de ter perdido o controle sobre a criação dos estilos de vida, estaria perdendo o monopólio sobre a inovação tecnológica e sobre a produção material. Pode existir, certamente, um problema de controle de um processo produtivo externo à empresa e amplo como a sociedade, mas, o próprio Arvidsson admite, o capitalismo cognitivo ainda é capaz de explorar a sua capacidade de organizar processos materiais e imateriais de produção, colocando em contato, por exemplo, pessoas com os mesmos gostos e os mesmos interesses. E, por outro lado, é justamente isso que as marcas sabem fazer melhor desde sempre.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida para consumo

 Zygmunt Bauman


A “subjetividade” dos consumidores é feita de opções de compra – opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição adquire a forma de uma lista de compras. O que se supõe ser a materialização da verdade interior do self é uma idealização dos traços materiais – “objetificados” das escolhas do consumidor. Pode se dizer que o “consumismo” é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humano rotineiros, permanentes e, por assim dizer, ” neutros quanto ao regime” transformando-os na principal força propulsora e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos,desempenhando ao mesmo tempo um papel nos processos de auto- identificação individual e do grupo, assim como na seleção de execução de políticas de vida individuais. O “consumismo” chega quando o consumo assume o papel-chave que na sociedade dos produtores era exercido pelo trabalho. Stephen Bertman cunhou os termos “cultura agorista” e “cultura apressada” para denotar a maneira como vivemos em nosso tipo de sociedade. Podemos dizer que o consumismo líquido-moderno é notável, mais que por qualquer outra coisa, pela (até agora singular) renegociação do significado do tempo. Tal como experimentado por seus membros, o tempo na sociedade moderna não é cíclico nem linear como costumava ser para os membros de outras sociedades. Em vez disso para usar a metáfora de Michael Maffesoli, ele é “pontilhista”, um tempo pontuado, marcado (senão mais) pela profusão de rupturas e descontinuidades,…A vida, seja individual ou social, não passa de uma sucessão de presentes, uma coleção de momentos experimentados em intensidades variadas. A vida ‘agorista” tende a ser “apressada”. A oportunidade que cada ponto pode conter vai segui-lo até o túmulo; para aquela oportunidade não haverá “segunda chance”. Cada ponto pode ter sido vivido como um começo total e verdadeiramente novo, mas se não houve um rápido e determindado estímulo à ação instantânea, a cortina pode ter caído logo após o começo do ato, com pouca coisa acontecendo no intervalo. A demora é o serial killer das oportunidades. Sim, é verdade que na vida “agorista” dos cidadãos da era consumista o motivo da pressa, é em parte, o impulso de adquirir e juntar. Mas o motivo que torna a pressa de fato imperativa é a necessidade de descartar e substituir. Como calculou Ignacio Ramonet, nos últimos 30 anos se produziu mais informação no mundo do que nos 5.000 anos anteriores: “Um único exemplar da edição dominical do New York Times contém mais informação do que seria consumida por uma pessoa culta do século XVIII durante toda a vida.” “Há informação demais por aí”, conclui Eriksen. ” Uma habilidade fundamental na sociedade da informação consiste em se proteger dos 99,9% de informações oferecidas que são indesejadas.” Sugiro que a idéia de “melancolia” representa, em última instância, a aflição genérica do consumidor ( o Homo eligens, por decreto da sociedade de consumo); um distúrbio resultante do encontro fatal entre a obrigação e a compulsão de escolher/ o vício da escolha e a incapacidade de fazer essa decisão. Que os seres humanos sempre preferiram a felicidade à infelicidade é uma observação banal, um pleonasmo, já que o conceito de “felicidade” em seu uso mais comum diz respeito a estados ou eventos que as pessoas desejam que aconteçam, enquanto a ” infelicidade” representa estados ou eventos que elas queiram evitar. Os dois conceitos assinalam a distância entre a realidade tal como ela é e uma realidade desejada. Por essa razão, quaisquer tentativas de comparar graus de felicidade experimentados por pessoas que adotam modos de vida distintos em relação ao ponto-de-vista espacial ou temporal só podem ser mal-interpretadas e, em última análise, inúteis. A maior atração de uma vida de compras é a oferta abundante de novos começos e ressurreições (chances de renascer). “Consumir”, portanto, significa investir na avaliação social de si próprio, o que, numa sociedade de consumidores, traduz-se em “vendabilidade”: obter qualidades para as quais já existe uma demanda de mercado, ou reciclar as que já possui, transformando em mercadorias para as quais a demanda pode continuar sendo criada. Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade. Citando Nietzche, Anders sugere que hoje em dia o corpo humano ( ou seja o corpo tal como foi recebido por acidente da natureza ) é algo que deve “ser superado” e deixado para trás. O corpo “bruto”, despido de adornos, não reformado e não trabalhado, é algo de que se deve ter vergonha: ofensivo ao olhar, sempre deixando muito a desejar e, acima de tudo, testemunha da falência do dever, e talvez da inépcia, ignorância, impotência e falta de habilidade do “eu”. O “corpo nú”, objeto que por consentimento comum não deveria ser exposto por motivo de decoro e dignidade do “proprietário”, hoje e, dia não significa, como sugere Anders “o corpo despido, mas um corpo onde nenhum trabalho foi feito.” Num romance com o ótimo título Slowness, Milan Kundera revela o vínculo íntimo entre velocidade e esquecimento ” O nível da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento”. A chegada da liberdade, no avatar escolhido pelo consumidor, tende a ser vista como um ato estimulante de emancipação seja das obrigações angustiantes e proibições irritantes, ou das rotinas monótonas e massantes. Logo que a liberdade se estabelece e se transforma numa rotina diária, um novo tipo de terror, não menos apavorante do que aqueles que a liberdade deveria banir, empalidece as memórias de sofrimentos e rancores de passado: o terror da responsabilidade. Seria difícil exagerar o poder curativo ou tranquilizador dessa ilusão de domínio sobre o tempo – o poder de dissolver o futuro no presente e de resumi-lo no “agora”. Se como afirma Alain Ehrenberg de maneira convincente, os sofrimentos humanos mais comuns nos dias de hoje tendem a se desenvolver a partir de um excesso de possibilidades, e não de uma profusão de proibições, como ocorria no passado, e se a oposição entre possível e impossível superou a antinomia do permitido e do proibido como arcabouço cognitivo e critério essencial de avaliação e escolha da estratégia de vida, deve-se apenas esperar que a depressão nascida do terror da inadequação venha substituir a neurose causada pelo horror da culpa ( ou seja, da acusação de inconformidade que pode se seguir à quebra das regras ) como a aflição psicológica mais característica e generalizada dos habitantes da sociedade de consumidores. Outro serviço que uma existência vivida sob estados de emergência recorrentes ou quase perpétuos ( ainda que produzidos de maneira artificial ou enganosamente proclamados) pode oferecer à saúde mental de nossos contemporâneos é uma versão atualizada da ” caça a lebre” de Blaise Pascal, ajustada a um novo ambiente social. Trata-se de uma caçada que, em total oposição a uma lebre já morta, cozinhada e consumida, deixa o caçador com muito pouco tempo, ou mesmo nenhum, para refletir sobre a brevidade, o vazio, a falta de significado ou a inutilidade de suas ações mundanas e, por extensão, de sua vida na Terra como um todo. A vida de consumo não pode ser outra coisa senão uma vida de aprendizado rápido, mas também precisa ser uma vida de esquecimento veloz. Refere-se acima de tudo, a estar em movimento.


No bojo das transformações geradas pelo capitalismo, ou mais precisamente pela globalização, os seres humanos estão sendo deixados do “lado de fora”, ou melhor, excluídos do mundo social. Em um espetacular livro que versa tanto sobre as conseqüências do processo de globalização, como também sobre o cenário sombrio em que se encontra a vida humana, Zygmunt Bauman reflete de modo bastante simples sobre o banimento da maioria dos indivíduos do progresso da modernidade. Em Vidas desperdiçadas, Bauman classifica os seres humanos que não conseguiram permanecer no carro da modernidade e que não conseguem se inserir no processo de globalização de “refugo humano”. A globalização é excludente, traiçoeira, eliminadora. Ela causa morte, fome, desemprego e caos para milhões de seres humanos, afirma Bauman. Produz dejetos, sujeiras e lixo humano que são jogados longe dos grandes centros urbanos e são colocados em grandes depósitos em terras inabitadas, sem qualquer tipo de organização, de política de reciclagem. Nosso planeta está cheio, afirma Bauman, está cheio porque a modernização se globalizou chegando a terras longínquas, penetrando nos costumes, na organização do modo de vida de povos que não se interessavam pela corrida ao progresso. Como o processo de produção de refugo humano é inquebrantável, ou seja, não pára um só instante, as áreas do globo estão cada vez mais lotadas, saturadas. Onde colocar o lixo, então? Essa questão é a que é mais debatida neste novo ensaio de Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização e suas conseqüências. “O mundo está seguro?” – pergunta Bauman. Como podemos perceber um mundo seguro onde existem milhares de refugiados, de asilados e de guetos almejando somente uma chance para pular no carro do progresso. Não estamos seguros pelo motivo de estarmos pisando em terreno minado, onde a qualquer momento soa o alarme de combate às ações terroristas, aos refugiados e ao refugo humano. Essa é a expressão da vida contemporânea, carregada de uma ideologia consumista que prega a individualização do individuo e, conseqüentemente, a negação do sentido humano de solidariedade. Neste caminho segue a produção de refugo humano e de lixo em maiores quantidades, haja vista que a sociedade de consumidores se sobrepôs à sociedade de produtores. Quem não consume torna-se refugo humano e o que é consumido transforma-se em lixo, dejeto ou sujeira. Este excêntrico livro está dividido em quatro grandes capítulos capazes de esclarecer o leitor no que diz respeito aos males da pós-modernidade como também às maléficas conseqüências da globalização. Ademais, todos os capítulos ressaltam aspectos importantes para entendermos a vida humana, ou melhor, a vida contemporânea no torvelinho dos acontecimentos sociais. No primeiro capítulo, Bauman terce uma análise dos projetos que os indivíduos pós-modernos batalharam para criar. Tudo aconteceu a partir da chamada geração X, com o surgimento de uma nova doença tão pouco existente nas gerações anteriores: a depressão. As causas desta estavam diretamente relacionadas às dificuldades enfrentadas pela geração X, como o aumento do desemprego. A globalização mudou a trajetória de vida desta geração, acabou com sonhos e projetos, criou dicotomias, rompeu com tradições e acelerou suas vidas. A globalizante modernidade líquida deixou pra trás a sociedade de produtores por uma sociedade de consumidores onde o que impera é a produção de refugos e de lixo. Ela fez com que os projetos humanos causassem a desordem e o caos no “admirável mundo líquido”. Este capítulo trata também da internet, essa potente ferramenta da modernidade. A tecnologia com seus ciberespaços transformaram a internet em mais um deposito de refugo de informação. O ciberespaço concentra milhões de informações descartáveis e inúteis. Por outro lado, os sites contabilizam números recorde de informações sobre refugo (lixo). Digitando no buscador google a palavra refugo (lixo) encontraremos 11.500.000 sites referente ao tema. Este fato reforça a idéia de que o lixo está se tornando um dos problemas mais angustiante de nossos dias. O refugo humano (as pessoas) está excluído de tudo, a lei não o contempla, os governos não se responsabilizam por eles. Vivemos no caos e na ordem. Os humilhados e excluídos do sistema, correspondem à maioria dos seres humanos existente na terra. Bauman salienta no segundo capítulo deste livro que o mundo está super populoso e que não existem mais terras para a enorme produção de refugo humano O debate em torno das questões demográficas ganha sentido quando, afirma Bauman, que existem países bastante povoados e países pouco povoados. A questão central deste capítulo gira em torno de um paradoxo: os órgãos governamentais afirmam que a população de 6,5 bilhões de habitantes existente na terra cresce rapidamente e que não haverá comida suficiente para todos. No entanto, a distribuição desta superpopulação é irregular, desordenada e caótica. O território europeu concentra uma grande quantidade de pessoas por kilometro quadrado. Já a população da África é insuficiente para o seu território. A questão são os recursos financeiros que cada país dispõe para sua população. Superpopulação gera refugiados e asilados, um dos grandes problemas das nações ricas. O medo surge como marca de nações como os Estados Unidos, a Inglaterra e França. Atentados como o 11 de setembro mudaram os programas governamentais para refugiados e asilados. Agora estes são visto em muitos casos, como potenciais terroristas. A mídia incita os cidadãos e o próprio governo a xenofobia. Nasce, dessa maneira, uma genealogia do medo baseada no receio ao terror e ao estranho (imigrantes, refugiados e asilados). Os estranhos (imigrantes, refugiados e asilados) têm como função receber toda a descarga de raiva e as ansiedades dos indivíduos, sobretudo por representarem um perigo para a segurança dos cidadãos. Daí, eles se tornam alvos fáceis de tema de campanhas xenofóbicas tanto pelos governos como pela população. Os imigrantes e os asilados são considerados o refugo da globalização, lixo humano que vaga em busca de um lugar na sociedade do progresso. Mas, o outro lixo, aquele tradicional que é produzido por “nós” também não existe mais lugar onde depositá-lo, guardá-lo. Os consumidores estão produzindo toneladas de lixo, alias, sem contar com o novo tipo de lixo produzido pela modernidade líquida: o lixo industrial, eletrônico. Estes têm vida longa, demoram milhares de anos para se decompor, poluem e estão destruindo nosso planeta. Globalizaram o medo, globalizaram o crime, os governos preferem prender imigrante a acabar com o crime organizado. No terceiro capítulo o autor terce um panorama sobre as políticas governamentais no que concerne a mudança do Estado social para o Estado excludente. O mundo globalizado prega por uma política de exclusão, de retirada de refugo. Cada país cuida de seu “lixo”, de sua população redundante retirando-a do convívio com os outros indivíduos úteis. A população redundante é a parte inútil, imprestável, que deve ser retirada de circulação, jogada em campos de refugiados. Para que isso aconteça, os países ignoram as leis internacionais, perpetram limpeza étnica e genocídios. O Estado de tolerância zero é acionado, os guetos são isolados, os bairros de imigrantes são vigiados dia e noite. Há uma produção de um Estado de emergência baseado no medo do “outro” (o estrangeiro). Tudo isso ocorre porque o mundo líquido destituiu o Estado de seus programas sociais, de seu dever para com sua população. O Estado social transformou-se em um Estado de guarnição, no qual o que impera é a proteção dos interesses das corporações globais e das transnacionais. No último capítulo Bauman, explora as conseqüências da modernidade líquida, sua função e sua cultura: do lixo. A cultura do lixo predominante da era líquida representa os novos modos de viver no mundo. O consumir soa ressonante nos ouvidos dos indivíduos de maneira a tornarem escravos dos cartões de créditos, do luxo e da beleza/estética. Sem falar que o consumismo cria a difícil batalha para permanecer dentro do mercado de trabalho, paradoxalmente cria-se a cultura do não emprego permanente, do fim dos compromissos com o “emprego para sempre”. Os relacionamentos tão pouco exigem compromisso, fidelidade. Namorar não requer mais todo um ritual de conquista, de galanteio e de sedução. Agora, namora-se à distância, temos diversos tipos de relacionamento, você escolhe: relacionamento de bolso, relacionamento à longa distância, relacionamento cool, encontro veloz e outros. Mudamos nossos comportamentos, porque a sociedade está em constante transformação. Nossos ideais transformaram-se em sonhos, por vivermos num mundo de permanente incerteza, onde tudo que agora é novo daqui há alguns minutos torna-se velho, lixo. Estamos na era da insegurança, na qual o medo predomina mais precisamente nos grandes centros urbanos. Na modernidade líquida os indivíduos não se olham tête-à-tête, preferem a tecnologia do telefone celular para se comunicar, pois é mais seguro não sair de casa. Preferem os reality show da televisão, como o Big Brother, é mais emocionante do que ir ao parque, ao cinema. Em suma, tal pensamento expressado pelo autor neste livro reflete a preocupação surgida nos últimos anos em relação às conseqüências da globalização no mundo: o aumento da produção de lixo (refugo humano, lixo tradicional e industrial), o aumento da população mundial e o aumento das desigualdades continentais. Ele reflete ainda sobre a separação entre os ricos e os pobres, os europeus e os não-europeus, os países subdesenvolvidos (sul) e os desenvolvidos (norte). Ademais, faz com que pensemos nas relações sociais re-configuradas a partir da Era Líquida, onde o mundo todo está em constante transformação.

Sobre o autor: Antonio Marcos de Sousa Silva é bacharel e licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará. É bolsista de Iniciação Cientificado (CNPq) pelo Laboratório de Estudos da Violência.